É muito difícil julgar O
céu dos suicidas.
A literatura tem algo de sagrado quando toca o cerne da
experiência humana.
Acredito que Ricardo Lísias tocou nesse sagrado.
A história é contada por “um certo” Ricardo Lísias,
historiador e especialista em coleções, que passa por um momento bastante
conturbado. Vive imerso na dor provocada pelo suicídio do amigo André – e é a
partir dessa dor que ele olha para sua vida, seu trabalho, sua família e para o
mundo, e claro que tudo fica fora de foco.
Não é exatamente isso,
embora possa ser sim: “Ricardo” está em uma odisseia. Ele busca saber para onde
foi o amigo. E é aqui que ele toca algo que não tem nome. Nós não sabemos e
nunca saberemos para onde vão os suicidas.
Durante sua busca por respostas – que na verdade é uma busca
por consolo – ele encontra brutalidade, violência e intolerância nas respostas.
Todas as religiões condenam os suicidas, são pecadores, atentaram contra ao
direito sagrado da vida, são covardes e vão diretamente para o inferno – ou a
variação do inferno, dependendo do humor de cada religião. E quando ele diz:
“Os suicidas sofrem, Deus desgraçado”, não há como seu coração não tocar, por
um segundo, nessa dor.
O que “Ricardo” quer é que seu amigo vá para o céu. Daqui,
de onde ele está, vivo e impotente, sua busca é para que as pessoas concedam o
céu a André.
Nesse ponto é uma narrativa forte, intensa e verdadeira.
Mas a narrativa destoa em outros momentos. Acho que o autor
regeu a orquestra sem dar atenção suficiente aos instrumentos de fundo e, aos
meus ouvidos, algumas notas soaram desafinadas e soltas. A família, as pessoas
que ele encontra e os movimentos de “Ricardo”, destoam muito da força narrativa
de outras partes do livro. As mudanças bruscas de humor de “Ricardo” soaram fáceis
e forçadas e não me convenceram. E nos momentos de humor, eu não ri.
Então, eu não gostei disso e não gostei daquilo, mas não
posso dizer que o texto não tem força, que não mexeu comigo, e que não toca de
forma contundente em um ponto nevrálgico da condição humana.

