Não há razão alguma para eu escrever uma resenha sobre As vantagens de ser invisível. Então
calma, que não é isso.
Stephen Chbosky escreveu um livro perfeito e eu odeio dizer
isso, porque soa errado e infantil, mas é assim que me sinto em relação a essa
narrativa tão pessoal, tão franca, tão frágil, mas tão forte e sólida. É lindo,
e lindo a ponto de eu querer engolir.
Mas, porém, contudo, toda via, me senti um pouco frustrada
com relação às leituras que o professor Bill indica. Só tinha lido Hamlet, e
sabia mais ou menos alguma coisa sobre todos os outros – menos Separate Peace e The Fountainhead que foi, tipo, “de onde saiu isso?”. Chocante, eu
sei.
Mas também é intrigante a forma como essas leituras são
inseridas no livro, porque fiquei com a impressão que Chbosky não quis,
deliberadamente, falar sobre elas. É como se ele fizesse apenas uma leve
apresentação, em alguns casos nem o nome dos autores ele menciona. Bill, quando
entrega os livros à Charlie, não dá nenhum direcionamento de leitura, ele
realmente deixa o Charlie decidir por si próprio o que pensar sobre cada livro.
E o Charlie, malucamente, não tece nenhum comentário relevante sobre os mesmos.
Seria vazia e desnecessária a presença desses livros na história, se os livros citados não fossem
basilares para a literatura ocidental e se
a falta de opiniões não refletisse o imenso respeito que o autor tem pelos: 1)
leitores, que vão ler e decidir, como o Charlie, se gostam ou não gostam, sem
carregar o peso da tradição e do cânone nas costas; 2) pela literatura, essa
velha safadinha que insiste em ser relevante de geração à geração.
Então agora, segue os livros e as impressões de Charlie.
Inspirem-se:
“To Kill a
Mockingbird” ou “O Sol é para Todos”, de Harper Lee.
Segundo Charlie: Se você ainda não leu, acho que deve,
porque é muito interessante. Agora [esse] é meu livro favorito, mas sempre acho
que um livro é meu favorito até eu ler outro.
“This Side of
Paradise” ou “Este Lado do Paraíso”, de F. Scott Fitzgerald.
Na primeira conversa com Sam e Patrick:
- “Este lado do paraíso”, do Scott Fitzgerald.
- Por quê?
- Porque foi o ultimo que li.
Isso fez eles rirem, porque sabiam que eu estava sendo
sincero, não estava me exibindo.
É estranho, porque às vezes eu leio um livro e acho que sou
a pessoa do livro. Aliás, o livro que Bill me deu era “Peter Pan”, de J.M.
Barrie. Eu sei o que você está pensando. O Peter Pan dos desenhos com os
garotos perdidos. O livro é muito melhor do que isso. É sobre esse garoto que
se recusa a crescer, e quando Wendy cresce, ele se sente traído. Pelo menos foi
o que eu entendi. Acho que Bill me deu o livro para me ensinar alguma lição. A
boa noticia é que eu li o livro e, por causa de sua natureza fantástica, não
fingi que estava no livro. Assim eu consegui participar e ainda assim ler.
“The Great Gatsby” ou “O Grande Gatsby”), de F. Scott
Fitzgerald.
“A Separate
Peace” ou “Uma Ilha de Paz”), de John Knowles.
Aliás, eu
ainda não lhe falei do Bill. Mas acho que não há muito a dizer, porque ele
continua me dando livros que não dá aos alunos dele, e eu continuo lendo os
livros, e ele continua me pedindo para escrever trabalhos, e eu faço. No mês
passado, por aí, li “O grande Gatsby” e “A Separate Peace”. Estou começando a
ver uma tendência no tipo de livro que o Bill me dá para ler. E, como as fitas
de músicas, é maravilhoso colocar cada um deles na palma da minha mão. Todos
são meus preferidos. Todos.
“The Catcher in the
Rye” ou “O Apanhador no Campo de Centeio”), de J. D. Salinger.
Bill me deu um livro para ler durante as férias. “O
apanhador no campo de centeio”. Era o livro favorito de Bill quando ele tinha a
minha idade. Ele disse que era o tipo de livro feito para nós. Li as primeiras
vinte páginas. Não sei como me senti em relação a ele, mas parecia apropriado
naquele momento.
(...)
Um dia depois de ter escrito para você, terminei “O
apanhador no campo de centeio”. Desde então, li o livro três vezes. Não sei bem
que outra coisa posso fazer. (...). Li o livro de novo nesta noite porque sabia
que, se não o fizesse, provavelmente começaria a chorar novamente. O do tipo
aterrorizado, eu quero dizer. Li até que fiquei completamente exausto e tive de
ir dormir. Pela manhã, terminei o livro e depois comecei imediatamente a lê-lo
de novo. Qualquer coisa para não sentir vontade de chorar.
“On the Road” ou “Pé
na Estrada”, de Jack Kerouac.
Bill me disse que eu estava me “desenvolvendo” em um ritmo
rápido e me deu um livro diferente como uma “recompensa”. É “Pé na estrada”, de
Jack Kerouac.
(...)
“Pé na estrada” é um livro muito bom. Bill não me pediu para
escrever um trabalho sobre ele porque, como eu disse, era “uma recompensa”.
Comecei a ler [Naked Lunch] quando cheguei em casa
e, para dizer a verdade, não sei do que o cara está falando. Nunca disse isso
ao Bill. Sam me disse que William Burroughs escreveu o livro quando usava
heroína e que eu devia “seguir o fluxo”. Então foi o que eu fiz. Ainda não
tenho a menor ideia do que ele estava falando, e então desci as escadas para
ver televisão com minha irmã.
(...)
Já li cerca de um terço do livro e até agora está
muito bom.
Depois que terminei, fiquei deitado na cama olhando
para o teto e sorri, porque o silêncio era muito legal.
(...)
Bill me disse
que tinha me dado o livro porque tinha terminado recentemente com a namorada e
estava se sentindo filosófico.
“Walden”,
de Henry David Thoreau.
Depois
comecei a ler o livro que Bill me deu. Era “Walden”, de Henry David Thoreau, o
livro favorito da namorada do meu irmão, então fiquei muito animado para ler.
Escrevi
um trabalho sobre “Walden” para Bill, mas desta vez fiz diferente. Escrevi um
relato do livro. Escrevi um relato fingindo que eu mesmo havia ficado na margem
de um lago por dois anos. Eu fingi que vivia da terra e tinha insights. Para falar a verdade, acho que
gostaria de fazer isso agora mesmo.
Bill me deu “Hamlet” para ler no
feriado. Ele
disse que precisaria de tempo livre para me concentrar na peça. Acho que não
preciso dizer quem a escreveu. O único conselho que Bill me deu foi para
considerar o personagem principal como os outros personagens dos livros que eu
tinha lido até então. Ele disse para eu não cair na armadilha de achar que a
peça era “fantasiosa demais”.
(...)
Passei
o feriado todo lendo “Hamlet”. Bill estava certo. Era muito mais fácil pensar
no cara da peça como os outros personagens que eu já havia lido. Também foi
útil para mim quando pensei no que havia de errado comigo. Não me deu nenhuma
resposta, mas me ajudou a compreender que outra pessoa havia passado por isso.
Especialmente alguém que viveu há tanto tempo.
“The
Stranger” ou “O Estrangeiro”, de Albert Camus.
Fui para casa e comecei a ler o novo livro que Bill
me deu. É chamado “O Estrangeiro”. Bill disse que é “muito fácil de ler, mas
difícil de ler bem”. Não tenho ideia do que ele quis dizer, mas até agora estou
gostando do livro.
“The
Fountainhead” (“A Nascente”), de Ayn Rand.
Então, na escola, Bill me deu o ultimo livro do ano
para ler. Chama-se “The Fountainhead”, e é muito grosso. Quando me deu o livro
Bill disse: “Seja cético a respeito deste aqui. É um grande livro. Mas procure
ser um filtro e não uma esponja”. Às vezes, acho que Bill se esquece que só
tenho dezesseis anos.
(...)
(...)
Terminei “The Fountainhead”. Foi uma experiência
maravilhosa. É estranho descrever a leitura de um livro como uma experiência
maravilhosa, mas foi o que eu senti. É um livro diferente dos outros, porque eu
não estava sendo um garoto. E não foi como “O Estrangeiro” ou “Naked Lunch”,
embora eu ache que foi de certa forma filosófico. Mas não foi como se você
tivesse que pesquisar filosofia. Foi mais simples, eu acho, e a melhor parte é
que eu peguei o que a autora escreveu e adaptei à minha vida. Talvez seja isso
o que significa ser um filtro. Não tenho certeza.
E sim, claro, o método de leitura do Charlie:
“O professor me disse para ler alguns capítulos de cada vez,
mas eu não gosto de ler os livros dessa forma. Leio logo metade dele na
primeira vez. E gosto de ler os livros duas vezes.”
Com isso está inaugurada a “Série de leituras do Charlie”,
que pretendo fazer sem pressão, porque assim é mais divertido.










