Mudança é basicamente
a história da vida de Mo Yan, sua infância, a juventude no exército e a
descoberta da escrita. Mas também é sobre He Zhiwu, um garoto grande e alto que
aparentava ter uns 25 anos (mas tinha menos), e Lu Wenli a garota que sentava a
seu lado, filha do homem que dirigia um caminhão Gaz 51 importado da União
Soviética que habitou os sonhos dos dois garotos e se faz presente durante toda
a narrativa.
É uma história que se quer simples, apenas uma pequena
narração sobre algumas vidas que viveram na China comunista dos últimos trinta
anos – mas, se a beleza mora na simplicidade, é na simplicidade da história de
Mo Yan que se encontra parte da história de seu país.
Mas a escolha de 2012, da Academia Sueca provocou polêmica e
declarações de artistas chineses bastante contrários e céticos em relação a
postura política de Mo Yan. É difícil dizer e julgar qualquer coisa daqui, da
minha confortável democracia, sobre o viver e o sobreviver em regimes
ditatoriais. Mas penso que a polêmica em torno do Nobel do autor, joga luz
sobre o que é Mudança.
O livro não é uma apologia a nada, é mais um caleidoscópio
em tons de cinza acerca da vida na China comunista. Segundo Mo Yan, no prólogo
do próprio livro, Mudança foi fruto
do convite de um editor de Calcutá, feito em 2005, para que escrevesse sobre as
“grandes transformações” ocorridas na China nas últimas três décadas. Mas, se
existem “grandes transformações” no livro, elas estão desenhadas no que ocorreu
com aquelas pessoas durante esse tempo, é a China através da vida de pessoas
que viveram a China.
Seria um livro de memórias, mas todos nós já estamos
escolados demais nesse assunto, e o próprio autor pontua no decorrer de suas
125 páginas que, se houver algum desacordo com os fatos, a culpa só pode ser da
memória – que está cheia de lembranças embaralhadas.
Me imagine piscando e sorrindo para você e é assim que
encerro esse texto ;)

